29 de Outubro de 2009

AOS LEITORES

Este blog, MÁTRIA MINHA, que se iniciou dia 10 de Abril de 2006, está agora fechado. Deixo, de cada uma das séries que escrevi, não de todas - cujos títulos estão apontados sub e servem de resumo a três anos e meio de bloga -, o texto que, por ser mais ou menos gostado, foi o mais lido. E um ou outro dos posts soltos. É uma maneira de vos dizer, obrigada por terem vindo.

O OUTRO PORTUGAL
NÃO ME IRRITE!
O QUE UMA MULHER PRECISA DE SABER - a teoria...
O QUE UM HOMEM PRECISA DE SABER - o efeito...
MAIS LISTAS PARA SEI SHONAGON
QUERIDO DIÁRIO
LISBOA EM POSTAIS
DIÁRIO DE BORDO
COMO DISSE? VENENO?
DÚVIDAS E FACTOS
MISTÉRIOS DA DOCE FEMINILIDADE
BABY, LOVE AIN`T JUST ANOTHER CHEAP THRILL
SOFISTICAÇÃO E MISTÉRIO
MEMÓRIAS DE CHÁ E BLUES
QUALIDADES QUE AMAMOS NOS RAPAZES
EU E AS OUTRAS
OS HOMENS SÃO UM MISTÉRIO
O EFEITO DAS PALAVRAS
AS MULHERES SÃO O QUE SÃO
THE LOST ART OF CONVERSATION - as regras que Murasaki Shikibu não escreveu para as fotografias de Nobuyoshi Araki
(...)

Mudei-me de armas, e agora bagagens, para o É TUDO GENTE MORTA - uma rapariga também se farta de estar sozinha.

80 QUERIDO DIÁRIO

Eu não sei escrever para mim nem quando escrevo só para os meus olhos: outros olhos eu quero neles que me espreitem - a ronda das palavras é o mais apertado abraço. O meu coração bate nelas. Em Maio o sol dança por cima das nossas cabeças, diante dos nossos olhos entontecidos de espanto. Encandeados pelo terror benigno, acreditamos que os mistérios e os milagres comungam da mesma natureza e não. Desfaz-se o caixão de vidro e a Nossa Senhora Branca de Neve faz a marcha do sol pisando leve sobre os pedidos que se erguem até às aéreas orquídeas brancas descidas do céu para caírem sobre o andor - a santidade é sempre sobre concretos ombros levantada para pedirmos muito de não ver a carne da devoção. O mundo acena branco, responde em espelho de mar branco, dizem, para saudar a Senhora. É mentira. É só para dizer, olha para por mim!, eu sou este aqui, vês-me? Nenhuns milagres pedidos à impotência. O mistério do amor, não mais. Chega porque é tudo. Repetimos transversalmente num imenso coro de tempo transversal, clamo ad te, numa conveniente cova, de profundis, gruta - poderia ser caixa, ou casa, ou mala de Iria - repetimos desde a invenção fecundada do eu até à resignação abandonada nas lágrimas sem fim de nós, repetimos as mesmas exactas palavras de não termos outras para dizer, inventamos dizer e até, que aflição! mesmo se feliz ela, inventamos palavras para nos podermos repetir mais bem. Clamo ad te. Quando eu era pequena, muito pequena, fazia redacções para ter vinte em voz alta e o silêncio inclinado para a frente das minhas colegas quando ouviam a voz alta da irmã enquanto lia o meu silêncio em voz alta. Outras colegas, mulheres pequenas faziam redacções de vinte nas equações para serem lidas em voz alta no quadro com música de pó de giz. Outras choravam em voz alta as redacções de nove valores nas respostas erradas no teste de geografia, no baton novo, nas batatas fritas, no esmero da mesa posta, no apuro do molho só para dizer em voz alta a um homem. Tantos dias de dezasseis horas de trabalho para dizer em voz alta a uma mulher. Todo o nosso desvelo tão marcadamente imperfeito, tão empenhadamente, tão amorosamente em fios de aranha feito. Desvelo na marcha do sol, olha para por mim, eu sou este aqui vês-me?, não me deixes cair! Quando o amor por vir vier, eu digo, amor, agora eu caio.

Publicado em 07.05.2009

02 MAIS LISTAS PARA SEI SHONAGON


COISAS QUE ASSUSTAM
. Quando de noite na rua vazia ouvimos atrás de nós passos que param quando paramos
. Sermos fixamente olhados, de baixo para cima, por alguém que sorri sem elevar os cantos dos lábios
. Cães a ladrar em diferentes pontos da cidade ao mesmo tempo
. Quando um arrepio nos corre o corpo, dos pés à cabeça, e a respiração se suspende
. Pássaros escolherem a nossa casa como lugar para morrer
. Sonhos onde as pessoas mudam subitamente de rosto
. Dias muito quentes, de céu enublado em que não há uma brisa


Publicado em 02.06.2006

(DEDICADOS A...)

O QUERIDO DIÁRIO PEQUENINO DELA
Quando eu era pequena tinha as mãos pequenas e o mundo era muito grande. Quando eu era pequena tinha um lenço tão pequeno que uma só lágrima do mundo o inundava. Quando eu era pequena tinha na mão pequena o lenço molhado do mundo, mas eu era muito pequena, o lenço estava muito molhado, e eu saltava à corda para que ele secasse depressa, eu crescesse depressa, ou cansasse depressa o eu grande dentro do eu pequeno de quando eu era pequena. Eu tinha uma pasta grande quando eu era pequena. Eu aprendi a ser grande no pulso das letras pequenas quando eu tinha uma pasta grande. Quando eu era pequena numa carteira grande, aprendi as letras grandes dos outros meninos pequenos nas outras carteiras grandes: quando eu era pequena aprendi a cantar o coro do alfabeto, as vogais, as consoantes, em coro de letras do tamanho das letras, eu já sabia, e cantava, quando era pequena, que o u do eu é o u do tu, e entre o e e o t só a pequenina diferença da circunstância do som e da localização. a e i o u. Eu. Tu. Porque quando eu era pequena, eu era grande. Agora que eu sou grande também choro no lenço pequeno só uma lágrima.

Para a Sofia Loureiro dos Santos, publicado em 27.04.2009

Ó TIAGO!, E SE LHE FIZESSEMOS UM CHURRASQUINHO DE LETRAS...

Estava aqui a pensar na responsabilidade do padrinho d`O Afilhado... ser um pai moral. Não é fácil! Ninguém pode carregar todo o dia nos braços, torahs, bíblias, kants, doutores e santos sem se cansar! Então, deu-me para pensar na irresponsabilidade, tão leve, de ser padrinho d`O Afilhado. A leveza de claras em castelo? Não ter responsabilidades de pai, só gelados, passeios, bicicletas, livros. Planear-lhe uma festa de aniversário cheia de atenções, mimos e malvadezas, só para não ter de dizer quase zangado, para não se desfazer, é para que saibas que gosto de ti! Ao contrário do Rock in Rio, a essa festa, eu vou! Mas como ainda falta tanto tempo, se calhar, para a combinar, fazíamos-lhe uma pré festa de quase aniversário: um churrasquinho de domingo, à terça, com samba de quintal. Boa? Grelhas e carvões são coisas de rapazes, nem lhes toco. Mas corto fininho tiras de a(s) de ananás para assar e polivilhar com canela: tudo a(s). E frito os a(s) das bananas. Ponho às rodelas os a(s) das laranjas que escorrem sumo na mão. Os a(s) da goiabada - fingida de marmelos com travo de limão - fiz de véspera. A fruta de churrasco escreve-se toda com a! E ao fim de tudo, cubinhos de melancia - isso é que me apetecia! - perdidos das malucas das pevides que não têm a. Juízo! Enquanto o Tiago trata do disparate hiperproteico e delicioso de picanhas, linguiças, cupins e assins, vou apurando o feijão: acredite se quiser... tenho uma apuradíssima mão. Já para arroz... ó drama!, não. Enquanto dura essa dança de virar grelhadores, dou eu uma volta na couve mineira - caldo verde português - depois de escaldada, na frigideira, junto-a ao chouriço frito picado com pó de pimentão encarnado e alho que se desfez. Verde e vermelho bandeira: heróis do mar?, gosto daquela do só gosto de ti, porquê, não sei, canto-a ao cão. Gosta? Não me diga que não! Só aceito reclamações do seu desgosto original por pontos de interrogação. Caipirinhas também faço bem. E sangria morangada, como ninguém. Já cantar, ó desgraça, mas desafinar... Quem convidou para a cantoria? Pró batuque? O cavaquinho? O violão? Na poesia fico eu, claro! E não me venha com coisas de Mario Puzo nem de Coppola que hoje não estou siciliana, sequer italiana para pastas, pizzas, mesmo em versão americana! (Não, não me esqueci da farofa. Com azeitonas?)

ps: quando é que muda a cor do fura olhos? gostava de o ler, até o punha na barra lateral - coisa que ele, coitadinho, precisa tanto!, ninguém o conhece...

Para o Tiago Moreira Ramalho, publicado em 19.05.2009

MUNDO CÃO

Hoje de manhã, quando o cão saltou para a cama para dizer, bom dia!, não ficou para os mimos de festas matinais e declarações da sua lindeza, unicidade e grande poder sobre as alegrias da dona. Pensei, mal!, está aflito para ir à rua. Fomos. Tempo contado. Voltámos. Começo a trabalhar e ele muito quietinho. Nem saltou para a secretária, nem veio desafiar com brinquedos na boca. Pensei, mal!, isto é da valente tosquia de sexta-feira, ainda não se habituou a tão pouco pêlo, tem frio e está zangado. Faço um intervalo, por volta da uma, ponho a bloga em dia que o fim de semana foi desblogado e ontem cheguei de viagem já tarde, e o cão começa a andar de um lado para o outro, à procura de uma posição, e eu, mas o que é que tens, e ele a enrolar-se, diz lá à dona, Cão, o que tens?! Nem colinho, nem mimos. Fica a olhar para mim. Não se queixa. Olha para mim... Veterinário. Felizmente ao lado da porta. Eu voltei, ele ficou. Hérnia estrangulada. Espero que ele volte que estrangulado já está o meu coração. Não faça "o morto", ouviu?

Para o Cão, publicado em 30.03.2009

IT RUNS IN THE FAMILY

O meu sobrinho é um génio, um Ondjaki das vogais. Descobriu o u e reinventou o universo conhecido. A cadela, Miranda, mais conhecida por Mimi, adoração em quatro patas, passou a chamar-se Mu. Aquele que ainda há pouco era pai, é um polissémico Pau. A mãe, que era, minha minha minha mãe, condensou-se em Mamu sem perder qualquer propriedade. Eu, claro, sou Tu, a importantíssima segunda pessoa, depois da primeira que é ele, o bebé bom, isto é, Bu. Hoje, para desgosto do mundo falante de português didáctico, fizemos frases de inspiração pedocanina com elevado sucesso em compreensão e execução. Exemplo: Bu, vai buscar a Mu e vem à Tu.

Para o Salvador do Carmo, publicado em 13.10.2009

06 BABY, LOVE AIN`T JUST ANOTHER CHEAP THRILL

Tu dizes. E eu. Dizemo-nos. Mas as palavras de amor têm, querido, mesmo as de mais obscena ternura têm, querido, a marca e o brilho ferino dos dentes na carne muscular do coração.


Publicado em 07.09.2009

01 MUSIC HALL - VVDP*

Eu, se fosse rapaz, e quisesse impressionar uma rapariga, só lhe diria verdades. Começaria logo pela mais verdadeira de todas: assim, como direi ... uma premonição de primeiro disparatezinho. Esta - mesmo que a menina em causa não tivesse o bom senso de usar um lacinho bonito a prender-lhe o cabelo. Salvaguardado desta forma, poderia lembrar-lhe quando a ocasião disparatada se verificasse, eu bem te disse, filha, que lailailai, mas tu quiseste... E tudo isto porquê? Porque se eu fosse rapaz, não quereria acabar a cantar isto - é bem feita! para não serem maus. Entre uma coisa e outra, há um monte de verdades verdadeiras, deliciosas e pirosas, que diria. Continue eu nas insónias de grande rendimento intelectual, e a viajar por esse mundo maravilhoso do You Tube, e dou-lhe música. Boa?

* verdades verdadeiras deliciosas e pirosas


Publicado em 23.03.09

44 AS MULHERES SÃO O QUE SÃO

As mulheres são, têm de ser, intolerantes e exigentes quando têm diante de si um homem de se olhar nos olhos, de se beijar na boca, um par, que olhando também, não vê, tocando também, não agarra, querendo também, não é. As mulheres têm as propriedades da terra, da textura ao sabor, e por isso naturalmente conhecem as propriedades da madeira: o homem. Os homens fortes são sempre meninos. São sempre rapazes. Essa é a força deles. Esse é o perigo deles. Deles que tomam pelas próprias mãos a saciedade com que enchem as próprias taças, sem perceber do que as enchem, mas percebendo no fundo vazio delas, o mesmo gosto de sempre. Porque de tão meninos, tão combustivos, tão permanentemente lançados no futuro, quando entre duas inspirações, na morada do desejo, imprimem, não a sede, não a água, mas a mesma saciedade já anteriormente tomada: uma repetição de corpos, uma indiferenciação de nomes. A isto, uma mulher completa, habitada por uma menina, por uma rapariga, uma mulher!, diz sempre, não. Porque o futuro para as mulheres é como o passado, conjuga-se sempre no presente. Um beijo pode ser uma boca sobre a outra, a exploração das bocas pela língua, do gosto delas, os olhos fechados, a acentuação dos sentidos e. Porém, e para além disto, há a doçura tão cruel da pureza, a desmesura do abismo que se abre quando a ponta da língua passa devagar nesse outro céu, o da boca, lhe contorna os lábios, retoma a distância e abre os olhos para cair sorrindo na escuridão sem fim.


Publicado em 22.04.2009

08 O OUTRO PORTUGAL

PASTORINHOS, TOALHAS E VOCAÇÕES
As crianças têm, quase sempre, uma costela teatreira que não tem nada a ver com talento ou qualquer outra competência das dignas artes de Talma. Faz parte da natureza exploratória da infância esta dramatização da realidade e os pais, com excepção dos menos avisados, não ficam a pensar que lhes encarnou nos filhos o espírito da Sarah Bernhardt. Algures, no meio da segunda classe, que foi muito marcante, pois no primeiro período tivemos uma professora com características angélicas que adoeceu e veio a falecer - foi substituída por uma criatura de má memória, que num rasgo de compaixão e amor pelo livre arbítrio, instaurou a pena de reguadas ou puxão de orelhas, à vontade do freguês, para os erros ortográficos e outras preciosidades - tive, além das mãos a arder por causa do s e do z, um ataque de misticismo. Uma coisa da natureza dos ataques de paludismo, ou de outro ismo qualquer, de que se conhecesse a existência, mas não fosse aplicável ao nosso clima, ou pelo menos, foi assim que a minha avó olhou para a situação. Discreta como sempre fui ao longo da infância, planava pela casa numa suavidade nunca antes vista, de olhos a fixar os candeeiros do tecto, mãos postas e, por absoluta inspiração, de toalha de rosto a cobrir a cabeça, já numa antecipação de convento. Claro que, após uma rápida indagação, fui convenientemente ignorada. Mas que despropósito é esse? Vai já por a toalha na casa de banho. Não posso, estou a ensaiar para ser freira, é obrigatório usar véu! Este desconhecimento básico das regras conventuais mostrava muito bem que o despropósito não era meu. Porém tinha de ser boazinha e responder pausadamente, como convinha ao meu novo estado religioso. Esta era, aliás, a maior dificuldade. Não correr, não andar aos saltos, fazer o sacrifício de não andar de bicicleta, não cantar pela casa as canções dos Gemini com coreografia em tempo real… Aquela forma monocórdica de falar estava a dar cabo de mim! Contudo tinha de ser para me preparar para uma longa vida de sacrifícios e abnegação. A coisa arrastava-se. Rezava de joelhos ao lado da cama, de preferência se alguém estivesse a ver. Não por exibicionismo, que ideia! Para mostrar a seriedade da minha vocação. Nenhum eco dos descrentes. Pagãos, bezerro de ouro e mais não sei o quê! Tornou-se rotina. Chegava a casa, punha o véu, ficava tão boa quanto a imaginação permitia conceber uma bondade bíblica de Novo Testamento e… aborrecia-me. A Madre Superior quer que faça alguma coisa, posso ajudar? Já te avisei para não me chamares Madre Superior... Mau, mau. Isto, quando as palavras começavam a repetir-se em tom de canção, era perigoso. Era tão perigoso o mau, mau! com prolongamento do último u, quanto o bom, bom! com o último om a descer para graves de barítono. A falta de discriminação entre as duas avaliações repetidas, de natureza antagónica e aleatória, bom-bom ou mau-mau, nunca me deixou em dúvida sobre o desfecho: adivinhava-se um castigo. A minha avó, ao contrário da minha mãe, tinha sérias reservas quanto à utilização das pedagogias mais recentes. Socorria-se muito de milenares técnicas de persuasão: Porquê? Mas que desplante, porque sim, porque eu mandei! Por isso, foi com grande surpresa, que ao fim de dias e dias e já farta do drama religioso, a ouvi dizer: Se a minha neta quiser ser freira, que grande desgosto me dá, preferia que fosse dançarina de cabaret… A menos que Deus exista, aí o caso já é diferente! Mãe, não diga uma coisa dessas. Que queres que diga, é que já não se aguenta, se fosse só a toalha ainda era como o outro - nunca soube quem era este outro de costas tão largas que aguentava tudo - Agora isto, da Madre Superior para cá e Minha Irmã para lá, dá-me nervos! Este embate de informações exigia que me sentasse. Terríveis e apocalípticas revelações! A saber: ser freira e ser dançarina de cabaret - cabaret, ora bem, haveria de ser qualquer coisa da ordem de um café, mas com música, mais escuro e com mais fumo, como nos livros do Lucky Luke, só que agora e em Portugal; e pelos vistos dançarina não era a mesma coisa que bailarina - não eram formas desejáveis de estar na vida. E, “filosofia de ponta”, Deus era opcional! A verdade não era, portanto, absoluta. Deus, que eu conhecia de tu cá tu lá, ou mais propriamente de o Senhor aí em cima, cheio de poder, e eu cá em baixo com um certo temor, para a minha avó não existia, ou melhor, havia uma elevada probalidade de não existir. As minhas certezas foram ao fundo. Foi a morte da toalha. A partir desse dia, e até ao segundo ataque de misticismo, de cada vez que olhava para a capa do livro das edições Paulistas, com os pastorinhos, elas de lenço e de joelhos, ele de cajado e gorro castanho, muito devotos em contemplação à Senhora, que pairava ecologicamente, acima dos ramos da azinheira, pensava: Estão a vê-la, pensam que estão a vê-la ou disseram só que a viram?

Publicado em 11.04.2006

08 SOFISTICAÇÃO E MISTÉRIO

Eu faço, não é segredo, um pleno de alergias: por inalação, por contacto, alimentares, enfim, como em tudo... se é para fazer, antes pecar por excesso que por falta. Porém, a questão cebola atinge rubros lacrimejantes nunca vistos - dirá você que é delicado, tu e o resto do mundo, ó filha! Não! Como eu só eu. Todavia, de brilhante que sou, e porque um refogadozinho é coisa fundamental, - não sou de comer cebola crua nem na salada! -, resolvi a questão com extremo bom gosto: corto ou pico a malvada com óculos de piscina postos: lentes cor de laranja e elástico amarelo. Olé!

ps: é por estas e por outras como estas, e até piores!, que eu não gosto de visitas surpresa, nem adiantadas.

Publicado em 09.06.2009

04 OS HOMENS SÃO UM MISTÉRIO

Rapazes, rapazes, rapazes! Vocês andam ao engano por conta dos estilistas e fazem-me a cabeça em água... O que é isto das gravatas às bolinhas?!

Publicado em 24.02.2009

03 O QUE UM HOMEM PRECISA DE SABER


O COVIL*
Meninos de ouro, príncipes da Reboleira ou da avenida de Roma, desliguem-se já da Mátria que estas palavras não vos são dirigidas e corram para o colinho seguro das vossas mães, ou das vossas mães substitutas. Como é que sabe se é um menino de ouro? É fácil, apesar de tanto se. Se se vai abeirando dos entas, ou já está instalado ou íssimo neles e ainda vive com a mamã, ou voltou a viver com a mamã, é um bom indício. Se vive de casa de namorada em casa de namorada, como um saltimbanco pinga amor, sempre a julgar que sim, que desta vez é o "amor agitando seu coração", mude para o disco do Roberto Carlos e deixe de se iludir e iludir com o David Bowie, os Cindy Cat e outros rapazes giros… Se vive sozinho, pré casamento ou pós divórcio e a sua autonomia emocional é a que a aprovação da super referida mãezinha, eventual sogra do inferno, permite, é outro bom indício. Se nunca encontrou uma mulher que servisse para criada da sua estremosa mãe, é uma certeza! Esta agora vai falar mal dos homens que vivem grandes paixões e das mães que mimam os filhos, se calhar queria que os tratassem à pedrada! Temos pena, mas bingo! Você é um príncipe, um menino de ouro. É, enfim, aquilo que mais facilmente será entendido se for designado como TUDO O QUE NÃO QUEREMOS! XÔ!
Nada disto é com vocês, rapazes, de vocês nós gostamos – entenda-se por rapaz, um heterosexual solteiro, divorciado ou viúvo e num estado de conservação emocional que oscile entre o médio e o óptimo, ou seja, passível de se apaixonar e nos apaixonar - que foi bem amado e mimado pela mãe e pelo pai. Bem e muito! E que os ama e mima de volta. Não queremos é os outros, os estropiados por falta ou excesso de zelo e que não souberam entrar, apesar das evidências, em AUTO REPAIR MODE. Sim, porque nós aceitamos consertados, agora a quererem que nós os consertemos... mais uma vez e em coro, temos pena! Nem queremos confundir uns, os rapazes, com os outros, os príncipes. Sim, às vezes os bandidos disfarçam-se e quando se descobre já há estragos suficientes para mandar o coração e os nervos para as urgências mais próximas.
Recomeçando, você é um rapaz, um dos que não vai a salões de cabeleireiras, dos que convida para um primeiro jantar agradável e dos que têm, pontualmente, rasgos de génio e tontice. Está em ponto. Ponto pérola ou caramelo ou estrada, (um dia havemos de voltar a isto, aos pontos do açúcar no pesa xaropes) dependendo do que quer fazer com o açúcar. A personalidade, a vida. Esteja atento, mantenha a temperatura, não deixe queimar. Nós gostamos assim. Já passou a nervoseira do primeiro jantar, já foram ao cinema, até ia psicologicamente preparado, porque é valente como um samurai, para uma comédia romântica ou para a reposição de Jules et Jim, mas ela, discretíssima, diz-lhe, ai não me dê desgostos, eu queria era ir ver o Appocalypse Now na versão integral. Você foi e teve o prazer de a ouvir trautear baixinho e desafinada a Cavalgada das Valquírias acompanhada a pipocas e já discutiram, pós cinema, mais do que The Importance of Being Earnest, a importância dos super poderes dos hérois das BDs da infância numa batalha pelo topo da hierarquia, em suma, coisas que interessam. Continuamos esclarecidos neste ponto do display de conhecimentos? É que já falámos nisto antes, há dois ou três posts atrás. Insisto: quem se interessa pelo pavão a pupilar do alto ramo da árvore a beleza da própria cauda é a pavoa ou alguma caçadora de penas para o Carnaval do Rio; agora quem quer fazer apaixonar-se por si uma andorinha menina soalheira que cheira como a Primavera, não grita, chilreia, zinzilula. Adiante. Ela parece que gosta de si, do embrulho à companhia, passando pela conversa e programas de festas. Você acha-lhe graça. Mas a situação não avança: ela não lhe dá abertura para um abracinho, um beijinho ou um outro inho qualquer de que um rapaz em vias de se apaixonar tanto necessita. É das duras, música sim, dança, não, pensa você qual filosófico bailarino. Não desanime, ao contrário do que possa pensar isso é um bom sinal. Por sinal, muito bom. Quer dizer: não está a olhá-lo como a um objecto descartável. Demora-se, avalia-o, tira-lhe as medidas. Não porque queira ficar com elas, não se exceda em devaneios românticos, para a eventualidade de querer experimentá-las a ver se o corte é bom como parece. Isto a si parece-lhe mal, tanto cálculo! Não pense disparatinhos. Preferia estar ao lado de uma tola que não sabe distinguir um bom partido como você de um incapaz de se aventurar no mundo? Gostaria de ser confundido com um tolo? Eu cá não... nem com uma tola, quanto mais! Menino com menina, tolo com tola, porque é preciso baixar a taxa de acidentes cardio-amorosos.
Posto isto, vamos ao trabalho. Você vai convidá-la para ir à sua casa, ao seu apartamento. Ao covil. Faz bem, nós estávamos à espera disso, gostamos muito aliás, informação é poder, já dizia não me lembro quem, mas estava certo. Casa arrumada, espera-se, porque quem gosta de desarrumação é o seu homem a dias e só porque é a vocação profissional dele e você paga devidamente por essa competência. Contamos que não esteja a contar com aquelas princesas, alimentadoras de machistas, que para mostrarem que são boas “Noivas, Esposas e Mães”, o título deste codex herético é assim, mas no singular, se oferecem logo para dar jeitos em louças e roupas e para cozinhar. Siga, que o tempo urge e a minha vida não é isto. Ela acabou de chegar à sua casa arrumada e a preparação do jantar já vai avançada. Menos mal, prognóstico, 7. Começa no positivo. É educada por isso oferece os préstimos. É mesmo aqui que se inicia a verdadeira triagem. Não resvale, diga: obrigado, está tudo controlado, e remate com um esmagador, preparo-te um aperitivo? Pontos, palmas, 8.70, próxima eliminatória. E ajuda a por a mesa, queres? Tinha acabado mesmo antes de chegares, mas quero que me proves isto antes de eu rectificar os temperos. Rectificá-los é fundamental, é de quem sabe o que faz, 8.85. Aproximam-se os quartos de final. Acabou de colocar a comida na mesa. Em vez de dizer senta-te, por favor, 7.00, arrisque-se a criar o tal espaço que lhe falta, o que lhe dará, talvez, um dos inhos que gostava de conhecer. A cortesia vai-lhe garantir que esta manobra, de outra forma arriscada, é completamente segura, mas tem de ser preciso, comedido e sincronizado. A saber: com um toque leve na cintura da convidada diga-lhe enquanto a acompanha à mesa, deixa-me afastar-te a cadeira, senta-te por favor, 8.90. Quem é amiguinha, quem é? Sobre o durante e o depois do primeiro jantar no covil falamos depois.
Claro, nada disto se aplica se você for o tal, o do post do passeio de bicicleta, porque nesse caso, não a teria convidado para o covil. Tê-la-ia convidado para um jantar piquenique surpresa com frutas e mousse de chocolate. Num jardim desconhecido.
Publicado em 23.04.2006

02 O QUE UMA MULHER PRECISA DE SABER

A TEORIA DO SOL
Pensa que sol é um substantivo/nome/, o que a TLEBS quiser, do género masculino? Se pensa, não vá a lado nenhum porque uma nova concepção do espaço está prestes a ser-lhe revelada. Olaré!
O sol é uma estrela; as estrelas são meninas; o sol é menina.
Lembra-se disto? Não fui eu que inventei, é a propriedade transitiva do segundo ano do ciclo - ou um degrau acima ou abaixo. Em termos práticos é quase um trânsito astrológico: você vai saber, não em que casa tem o sol, mas como ser a mais brilhante estrela do firmamento do seu… como chamar-lhe? Talvez, futuro namorado, loucamente apaixonado por si e que você já sabe quem é mesmo que ele ainda não tenha descoberto a força da sua atracção gravitacional. Ufa! Até fiquei cansada. Ora, exprimente lá dizer isto de seguida e em voz alta. Bom, pelo menos, não há dúvidas quanto à identidade do moço. Comecemos: o que faz o sol? O sol brilha. Pronto, são feitios. E você, o que fará? Ah pois. Se nunca lhe ocorreu brilhar, não se preocupe, segue-se um curso intensivo, de nível básico, em brilho.
1 Sorrir é o início do brilho. É preciso sorrir. Não como uma Miss de concurso de beleza cujo o sorriso desesperado diz, escolham-me!, escolham-me!, mas porque à sua volta há gente interessante, céu, passarinhos e tudo o resto. Se a minha amiga tiver um feitio um bocadinho dramático, sorria de compaixão pela naiveté - esta deve ser ao seu superior gosto - dos que conseguem sorrir enquanto o apocalipse, na sua impiedosa marcha, avança sobre o mundo! ( Fui suficientemente dramática para si? Olhe, que fiz um esforço… Agora faça a sua parte. Não resista. Sorria. Qual é o quadro mais visto no mundo? A Mona Lisa. Por causa do sorriso e tal… Quem é amiguinha?)
2 Cuide-se. Cuidar-se é convidar o seu brilho interno a irradiar. Ena!, que até me assustei com esta que parece ter saído de um daqueles livrinhos infernais de auto-ajuda. Mas, a despeito do mau gosto da frase, a eficácia do que ela contém é incontestável. Leia muito. Informe-se. Dê de beber aos olhos com pintores e fotógrafos que ame. Faça os caminhos como um turista de passeio. Não é preciso máquina, nem chapéu e calções. A propósito: vista, apenas e só, aquilo que a faz sentir-se de bem com a vida e com o espelho. Nada de ataques de estrela da pop, a menos que seja uma estrela da pop! Vista por fora a segurança que sente por dentro. Isto tanto dá para umas calças de ganga com uma camisa branca, como para uma mini saia com um maxi casaco e umas belas e vertiginosas sandálias do Luís Onofre. E se não sentir segurança, não se mace. Ela vem com a prática de agir como se a sentisse. Se, de vez em quando, tremer como varas verdes, não é grave. Os rapazes não vêm equipados com visão raio X. Só as meninas e o Superman. E se o tremor saltar de dentro para fora, isto é, do coração para as mãos e joelhos, é fácil, diga: tive, mesmo agora, um arrepio de frio… É irrelevante que estejam 40 graus e vocês no Sahara. Atribua a uma imperceptível brisa, a um pressentimento - de felicidade, claro -, a qualquer coisa, enfim: ele, se for seguro de si mesmo, só vai fingir que acredita.
3 Aqueça. Ou melhor: vá aquecendo. Aquecer é fundamental. Eu não disse, escalde! Muito menos, queime! E, em caso algum, exploda! Senão, estamos mal. O objectivo é o domínio da técnica do banho-maria: sem que ele se aperceba, fica derretido. É que há pratos que só ficam em condições se alguns ingredientes passarem por este processo. Alguns ingredientes. Não todos. Há sempre áreas em que o incentivo inicial tem de ser em lume alto. Mas não é nesta. E não!, isto não é negociável!
4 Não inicie qualquer acção. O sol está quietinho, não está? Então, faça de sol, deixe que gravitem em torno de si.

12 NÃO ME IRRITE!


O EIXO DO MAL, A CAROLINA DO PINTO, O YUKIO E EU.

I
A Clara Ferreira Alves, no Eixo do Mal, chamou lixo ao livro da Carolina Salgado, que tem por originalíssimo título Eu, Carolina. Tenho de discordar da CFA. E mais, tenho de agradecer à selectiva D. Quixote pela alegria que me deu com a publicação desta obra. Eu, Carolina, começa logo no título a manifestar a genialidade da autora, pois responde sem ambiguidades à filosófica questão, quem sou eu?. As outras duas questões fundamentais da existência, donde venho e para onde vou?, são igualmente respondidas de forma inequívoca: venho do Pinto da Costa, ou será Pinto das coças?, e vou para a judiciária prestar informações. O registo claro e desassombrado desta novíssima autora, neste, por certo, best seller, é de fazer desmaiar o realismo de Zola. Muito se comentou, também no referido programa da SIC Notícias, a flatulência do dirigente do Futebol Clube do Porto e a pronta acção de camuflagem desta amantíssima mulher à despropositada intervenção intestinal do seu amado: vulgo, acender um cigarro para disfarçar o cheiro. Ora, esse acender de cigarro é uma lição. Pena é que Yukio Mishima já se tenha suicidado há algum tempo; na posse da informação deste desvelado cuidado, rescreveria os Actos de Adoração. E não faria mais do que a obrigação dele. Está na altura de reconhecermos que, afinal, as instituições culturais/comerciais trabalham em estreita ligação com os Ministérios da Educação e Cultura pois, finalmente, é produzido e amplamente divulgado, um trabalho que faz justiça ao país que somos. Chegou também a altura de me aplaudir a mim mesma por colaborar, ainda que modestamente, nessa divulgação. Palmas!

II
Se discordei da CFA só me resta concordar com o José Júdice por me terproporcionado mais um momento de profunda reflexão científica/cultural. A saber: as pessoas obesas vêm os seus neurónios mastigados pelos radicais livres - se calhar também são comedores compulsivos - e, por isso, são menos inteligentes. Na posse desta extraordinária informação, e para não encandear mais ninguém com o brilho da minha inteligência, que é mais intenso do que o do lendário Farol de Alexandria, comi uma caixa de bombons, concentradíssima no envio de mensagens gustativas aos ditos radicais livres para que me acabassem com um número significativo de neurónios, sob pena de passarem de radicais a moderados e de livres a prisioneiros com direito a um bilhete grátis num voo privado da CIA pelo espaço aéreo português. Mas deve ter funcionado muito bem porque fiquei logo a concordar com JJ no que diz respeito à intervenção das tropas americanas no Iraque. Agora aquela do Camões, se calhar só com uns pacotes de batatas fritas a acompanhar um Mac hamburguer e abundante Coca Cola...

III
-Ó Yukio, onde é que compraste a espada?

Publicado em 10.12.2007

07 THE LOST ART OF CONVERSATION - as regras que Murasaki shikibu não escreveu para as fotografias de Nobuyoshi Araki

A conversa não visa a sedução. Se se entrega o controlo ao interlocutor é porque pouco a submissão intimida. A doçura é o domínio do mais receptivo. A conversa visa a alternância das rendições.

Publicado em 16.03.2009

49 CORRESPONDÊNCIA

Mr. Right - who ever you are, where ever you are, and I`m not saying it`s you! - don`t get me wrong, but...,

Amor por vir, faço questão que saiba que aquilo do Amor chegado me aterroriza: e se não fui à depilação e assins? Por outro lado, para o caso de os infinitivos ganharem a substância de presentes dos indicativos, também lhe quero dizer que não gostaria que viesse ao engano. Explico tudo. As mulheres, quando se apaixonam por alguém que está apaixonado por elas, fazem-se muito interessantes. Os homens também. Ora isto, diga-se de passagem, é um desperdício de energia: depois a plumagem cai e já não se encontra o pavão. Eu não. Eu sou chata. E não melhoro com tempo. Mas também não pioro. Uma das conversas que tive com o meu ex marido é o perfeito exemplo. Infelizmente, isto é tudo verdade. Adiante. Ele, de vez em quando, oferecia-me tolkiens - como eu lhes chamava - em edições de capa mole, baratas, inglesas, porque sabia que eu os perderia. Eu gostava muito, muito. Uma noite, estávamos ambos a ler, eu, o último Senhor dos Anéis que ele me havia dado de presente - e que já perdi, claro -, quando fechei o livro e lhe disse:
- achas que um dia fazem um filme disto?
- não sei.
- como é que não sabes, se já leste? queres coisa mais cinematográfica?
- não sei, se calhar fazem.
- e achas que é daqui a muito tempo?
- como é que queres que eu saiba?
- mas o que é que achas?
- acho que era uma boa ideia.
- então achas que fazem?
- acho.
- mas isto é tão grande.
- eliminam o que não é fundamental.
- e se cortam os ents?
- os ents ficam.
- mesmo assim é enorme...
- fazem como a guerra das estrelas, em episódios.
- e se eu morro antes de ver todos?
Por muito que me desgoste, sou chata... é para que saiba.

Publicado em 20.08.2009

08 EU E AS OUTRAS

Anda tudo, ai a Primavera, ai a Primavera, ai, ai... como se os passarinhos todos tivessem nascido hoje, o pólen só fizesse espirrar hoje, e sol e a vontade de mãos dadas no sofá como se fosse um banco do jardim, só hoje! Ou um passeio a pé e o primeiro beijo dado a quem se ama pela primeira vez, só hoje. E as andorinhas voassem hoje o estranho azul hipnotizador das penas delas - nunca antes. Eu tenho uma Primavera à la carte, e sempre informo, a quem se quiser informar, que hoje não há. A avaliar pelo galope das maldades está-se a ensaiar um daqueles fins de semana que adoro e que tendem a desgostar. Baixou-me o Santo do Vai Tu - devo estar p`raí com com oito ou nove anos.
- Não foste à manicure?
- Vai tu.
- Vamos jantar?
- Vai tu.
- Queres ir ao cinema?
- Vai tu.
Antes que me mande onde está com vontade, digo-lhe que essa linha tem a resposta que a Maria de Medeiros deu ao Joaquim de Almeida:
- Vai tu...
Hoje é um bom dia para cantar isto. Estou com um equinócio pop que não é brincadeira! Fazer o quê?

PS: Feliz Primavera para si e para mim!

Publicado em 20.03.2009

OLHÁ MOLA

Eu dou erros ortográficos. Estava na insónia a pensar nisto dos erros ortográficos tão gráficos que dou. São exactamente como as molas de plástico em cores berrantes de prender a roupa. Olho para a frase, o estendal, e ZÁS!... todo encarnado, azul primário, amarelo de sol o meu erro. E roupa... nada!, só vejo a mola. Ela ali a balançar-se na cedilha a mais, no sacana do s, na marca Z na ponta da espada do Zorro. No outro dia, aqui mesmo, escrevi transmição. Não tinha dormido, bem sei que justificação rima, mas a verdade é que não me lembrava como é que se transmitia. O ç balançava, já rubro, e eu, çei [sei!] estás errado, mas como é que és certo? E vá de blocos operatórios mentais de cansaço com mecânicos a dizer, é a correia da transmissão, ao longe, e a preparar as mãos no desperdício para as entranhas da máquina. Mas eu queria-a televisiva, não homógrafa de oficina. Trans-mi-cão? Poderia ser, com boa vontade, um espanholês nasalado, ladrado, imperativo: traz mi cão! Trá-lo tu, mandão! E a televisão continuava sem imagem, avariada no ç, a mola mudada em púrpura a arrastar pelo estendal vergonhas cesárias. Transmisão? Transmizão é demais, não? Até que alguém se lembrou de me dizer que isto, caixa de bloga, vem com corrector - eu não sabia! ABC e um visto em baixo dele em azul de bonitinho, zero erros, viu? Ou Não foram encontrados erros ortográficos verde para seguir. Assim, verde sigo, às vezes, tropeço. Não nas vezes em que fujo bem, corro, mas nas outras, quando fugo, ó desgraça!, a pé coxinho. E o horror quando não posso saber se puder é poder? É só sofrer, sofrer. Mas com o que com u só em Espanha.

Publicado em 28.04.2009

07 O EFEITO DAS PALAVRAS

Às vezes, as pessoas, vergonha, todos nós, outras, timidez, um pouco, insegurança, também, coisas, enfim, de se ser pequeno e frágil naqueles cantinhos ou no exacto momento em que dava jeito ser-se belo e impressivo de cinemascope, mas não, só cores de mundo, velocidade de mundo em película granulada de tempo verbal mais-que-imperfeito. Basta um para a vergonha, a timidez, a insegurança. Nada disto é, no entanto, da mesma natureza de encabular. Para ficar encabulado são precisos sincronizados dois! E só se fica encabulado na literatura abaixo da linha do equador, ou num ecrã com laterais colunas donde saia um português com sotaque. Seja como for, se tal verbo salta das páginas ou das imagens para um lugar de nós onde se encabule - a voz, o olhar, o meio sorriso, as mãos -, é certo que, anos são menos de vinte e a timidez se rendeu, envergonhada, assim mesmo, insegura, paciência!, e já não dissimula o querer. Encabular é sempre à beira de um abismo qualquer, inocente de desconhecido porém forte de se lhe conhecer a força. É um jeito de, não sabendo muito bem porquê, muito bem como, arrastando dúvidas no gerúndio, saber muito bem que sim, deixar... um jeito de ir deixando que nas veias se insinue vontade e desejo até ao pensamento que cora de ser flagrado pelo pensamento do outro encabulado. E ficando os dois uma alegria de estátuas a olhar para o e agora?

Publicado 28.05.2009

SEGUIDORES