O QUERIDO DIÁRIO PEQUENINO DELA
Quando
eu era pequena tinha as mãos pequenas e o mundo era muito grande. Quando eu era pequena tinha um lenço tão pequeno que uma só lágrima do mundo o inundava. Quando eu era pequena tinha na mão pequena o lenço molhado do mundo, mas eu era muito pequena, o lenço estava muito molhado, e eu saltava à corda para que ele secasse depressa, eu crescesse depressa, ou cansasse depressa o eu grande dentro do eu pequeno de quando eu era pequena. Eu tinha uma pasta grande quando eu era pequena. Eu aprendi a ser grande no pulso das letras pequenas quando eu tinha uma pasta grande. Quando eu era pequena numa carteira grande, aprendi as letras grandes dos outros meninos pequenos nas outras carteiras grandes: quando eu era pequena aprendi a cantar o coro do alfabeto, as vogais, as consoantes, em coro de letras do tamanho das letras, eu já sabia, e cantava, quando era pequena, que o
u do e
u é o
u do t
u, e entre o
e e o
t só a pequenina diferença da circunstância do som e da localização. a e i o u. Eu. Tu. Porque quando eu era pequena, eu era grande. Agora que eu sou grande também choro no lenço pequeno só uma lágrima.
Para a Sofia Loureiro dos Santos, publicado em 27.04.2009
Ó TIAGO!, E SE LHE FIZESSEMOS UM CHURRASQUINHO DE LETRAS...
Estava aqui a pensar na responsabilidade do padrinho d`
O Afilhado... ser um pai moral. Não é fácil! Ninguém pode carregar todo o dia nos braços, torahs, bíblias, kants, doutores e santos sem se cansar! Então, deu-me para pensar na irresponsabilidade, tão leve, de ser padrinho d`
O Afilhado. A leveza de claras em castelo? Não ter responsabilidades de pai, só gelados, passeios, bicicletas, livros. Planear-lhe uma festa de aniversário cheia de atenções, mimos e malvadezas, só para não ter de dizer quase zangado, para não se desfazer, é para que saibas que gosto de ti! Ao contrário do Rock in Rio, a essa festa, eu vou! Mas como ainda falta tanto tempo, se calhar, para a combinar, fazíamos-lhe uma pré festa de quase aniversário: um churrasquinho de domingo, à terça, com samba de quintal. Boa? Grelhas e carvões são coisas de rapazes, nem lhes toco. Mas corto fininho tiras de
a(s) de
an
an
ás para assar e polivilhar com canela: tudo
a(s). E frito os
a(s) das b
an
an
as. Ponho às rodelas os
a(s) das l
ar
anj
as que escorrem sumo na mão. Os
a(s) da goi
ab
ad
a - fingida de marmelos com travo de limão - fiz de véspera. A fruta de churrasco escreve-se toda com
a! E ao fim de tudo, cubinhos de melancia - isso é que me apetecia! - perdidos das malucas das pevides que não têm
a. Juízo! Enquanto o Tiago trata do disparate hiperproteico e delicioso de picanhas, linguiças, cupins e assins, vou apurando o feijão: acredite se quiser... tenho uma apuradíssima mão. Já para arroz... ó drama!, não. Enquanto dura essa dança de virar grelhadores, dou eu uma volta na couve mineira - caldo verde português - depois de escaldada, na frigideira, junto-a ao chouriço frito picado com pó de pimentão
encarnado e alho que se desfez.
Verde e
vermelho bandeira: heróis do mar?, gosto daquela do
só gosto de ti, porquê, não sei, canto-a ao cão. Gosta? Não me diga que não! Só aceito reclamações do seu desgosto original por pontos de interrogação. Caipirinhas também faço bem. E sangria morangada, como ninguém. Já cantar, ó desgraça, mas desafinar... Quem convidou para a cantoria? Pró batuque? O cavaquinho? O violão? Na poesia fico eu, claro! E não me venha com coisas de Mario Puzo nem de Coppola que hoje não estou siciliana, sequer italiana para pastas, pizzas, mesmo em versão americana! (Não, não me esqueci da farofa. Com azeitonas?)
ps: quando é que muda a cor do fura olhos? gostava de o ler, até o punha na barra lateral - coisa que ele, coitadinho, precisa tanto!, ninguém o conhece...
Para o Tiago Moreira Ramalho, publicado em 19.05.2009
MUNDO CÃO
Hoje de manhã, quando o cão saltou para a cama para dizer, bom dia!, não ficou para os mimos de festas matinais e declarações da sua lindeza, unicidade e grande poder sobre as alegrias da dona. Pensei, mal!, está aflito para ir à rua. Fomos. Tempo contado. Voltámos. Começo a trabalhar e ele muito quietinho. Nem saltou para a secretária, nem veio desafiar com brinquedos na boca. Pensei, mal!, isto é da valente tosquia de sexta-feira, ainda não se habituou a tão pouco pêlo, tem frio e está zangado. Faço um intervalo, por volta da uma, ponho a bloga em dia que o fim de semana foi desblogado e ontem cheguei de viagem já tarde, e o cão começa a andar de um lado para o outro, à procura de uma posição, e eu, mas o que é que tens, e ele a enrolar-se, diz lá à dona, Cão, o que tens?! Nem colinho, nem mimos. Fica a olhar para mim. Não se queixa. Olha para mim... Veterinário. Felizmente ao lado da porta. Eu voltei, ele ficou. Hérnia estrangulada. Espero que ele volte que estrangulado já está o meu coração. Não faça "o morto", ouviu?
Para o Cão, publicado em 30.03.2009
IT RUNS IN THE FAMILY
O meu sobrinho é um génio, um Ondjaki das vogais. Descobriu o u e reinventou o universo conhecido. A cadela, Miranda, mais conhecida por Mimi, adoração em quatro patas, passou a chamar-se Mu. Aquele que ainda há pouco era pai, é um polissémico Pau. A mãe, que era, minha minha minha mãe, condensou-se em Mamu sem perder qualquer propriedade. Eu, claro, sou Tu, a importantíssima segunda pessoa, depois da primeira que é ele, o bebé bom, isto é, Bu. Hoje, para desgosto do mundo falante de português didáctico, fizemos frases de inspiração pedocanina com elevado sucesso em compreensão e execução. Exemplo: Bu, vai buscar a Mu e vem à Tu.
Para o Salvador do Carmo, publicado em 13.10.2009